Área do Associado (em manutenção)
– Evento reuniu especialistas para discutir os desafios e os caminhos da descarbonização no setor automotivo, com foco em eficiência energética, emissões e combustíveis.
– AEA anunciou a criação de grupo técnico sobre biocidas, liderado por Sergio Viscardi.
23/04/2026 – O debate sobre eficiência energética, emissões e combustíveis ganha contornos cada vez mais complexos diante de um cenário global marcado simultaneamente pelas mudanças climáticas e pelas tensões geopolíticas que impactam diretamente o acesso e a dinâmica dos combustíveis fósseis. Foi a partir dessa leitura que teve início o Simpósio de Eficiência Energética, Emissões e Combustíveis, promovido pela Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA), no dia 16 de abril, em São Paulo.
Na abertura do encontro, Marcus Vinicius Aguiar, presidente da entidade, destacou a necessidade de uma abordagem abrangente para os desafios da descarbonização, considerando que o atual estágio de desenvolvimento tecnológico e energético ainda demanda a presença de diferentes fontes de energia. “O setor automotivo é chamado a avançar em soluções que integrem eficiência energética, redução de emissões e evolução da qualidade dos combustíveis”, afirmou.
Ainda na sessão de abertura do evento, a comissão técnica de Combustíveis do Ciclo Diesel da AEA, coordenada por Letícia Dranka, lançou a cartilha “Boas práticas – Diesel comercial”, disponível no site da entidade.
A discussão se desenvolveu a partir do tema adotado para esta edição: “As ecléticas rotas para a descarbonização da nossa mobilidade”, com o intuito de reconhecer a importância de múltiplas tecnologias e caminhos complementares para atender às diferentes realidades operacionais, econômicas e regionais.
Na palestra de abertura, com o tema “Tecnologias automotivas para descarbonização da matriz energética, visão biocombustíveis e elétricos”, Raflem Santos, analista ambiental em transportes da Confederação Nacional do Transporte (CNT), apresentou uma leitura estruturada sobre o papel das diferentes rotas tecnológicas na transição energética. O especialista destacou que o transporte de cargas no Brasil permanece fortemente concentrado no modal rodoviário, responsável por cerca de 64,85% da movimentação, o que reforça a necessidade de soluções aderentes à realidade operacional do país. Nesse contexto, a renovação de frota foi apontada como uma das estratégias mais imediatas, com potencial de reduzir, em média, até 95% das emissões de veículos mais antigos, além de ganhos expressivos na redução de poluentes locais e na qualidade do ar.
Ao detalhar as alternativas energéticas, Santos apresentou uma visão escalonada de adoção tecnológica. No curto prazo, o diesel verde (HVO) se destaca pela compatibilidade com a infraestrutura existente e pelo avanço da produção global, concentrada principalmente na América do Norte (42%) e Europa (38%), além de iniciativas já em curso no Brasil. No médio prazo, o biometano ganha relevância ao estruturar uma cadeia baseada na valorização de resíduos, com produção nacional estimada em 111,2 milhões de m³ e forte concentração no Sudeste, onde cerca de 94% tem origem em resíduos sólidos urbanos. Já no longo prazo, o hidrogênio renovável e a eletromobilidade ampliam o horizonte de descarbonização, ainda condicionados a desafios como infraestrutura, custo e escala.
Abrindo o Painel 1 “Combustíveis e biocombustíveis: percalços e demandas”, a palestra “Comportamento do diesel verde (HVO) durante o armazenamento simulado”, conduzida por Fátima Bento, professora titular da UFRGS, trouxe uma leitura técnica sobre a evolução dos biocombustíveis no Brasil e os desafios associados ao uso e à qualidade desses produtos ao longo da cadeia.
A especialista contextualizou o avanço regulatório do setor, com destaque para iniciativas como o RenovaBio e a Lei do Combustível do Futuro, reforçando o protagonismo brasileiro na agenda de biocombustíveis. Nesse cenário, o país se apoia em uma matriz diversificada, que inclui etanol, biodiesel, atualmente com mistura obrigatória de 15% ao diesel, além de novos vetores como o bioquerosene e o diesel verde. Segundo a professora, esse conjunto consolida uma vocação nacional para soluções renováveis, ao mesmo tempo em que amplia a complexidade técnica e regulatória do setor.
Ao abordar especificamente o diesel verde (HVO), Fátima Bento destacou que não se trata de um combustível completamente novo, mas de uma evolução tecnológica baseada no uso de matérias-primas já conhecidas, submetidas a diferentes rotas de processamento. Nesse contexto, chamou atenção para o fato de que distintas estratégias produtivas podem resultar em combustíveis com características variadas, especialmente em função da composição de parafinas e isoparafinas. Essa diversidade de perfis, segundo a professora, traz implicações diretas para o desempenho e o comportamento do combustível, incluindo aspectos relacionados à estabilidade e ao armazenamento, que seguem como pontos de atenção na consolidação dessa rota energética.
Na palestra “Racionalização regulatória em veículos leves: dores e propostas”, Roger Tadeu Gondim Guilherme, da Volkswagen do Brasil, destacou os principais desafios regulatórios da descarbonização, com foco na pegada de carbono (CO₂e), nas emissões de poluentes e na convergência entre mercados.
Ao abordar o ciclo de vida dos veículos, apontou a dificuldade de mensuração da pegada de carbono, ainda limitada pela falta de dados locais e de metodologias harmonizadas. Como proposta, defendeu uma implementação faseada, com início pelas etapas mais controláveis do processo produtivo.
Sobre o Proconve, reconheceu os avanços na redução de emissões, mas destacou que os veículos leves já operam em níveis muito baixos de poluentes. Nesse contexto, o avanço para faixas mais restritivas (BINS) tende a elevar custos sem ganhos proporcionais, impactando o preço dos veículos e o ritmo de renovação da frota.
O executivo também apontou o alto número de testes de conformidade e a fragmentação regulatória entre países como entraves à competitividade, defendendo maior harmonização regulatória para ampliar a eficiência e o potencial da indústria.
Na palestra “Status dos testes com B20”, Lorena Mendes de Souza, coordenadora-geral de Biodiesel e Outros Biocombustíveis do Departamento de Biocombustíveis do Ministério de Minas e Energia (MME), apresentou o andamento do plano de trabalho voltado à avaliação da viabilidade técnica do aumento da mistura de biodiesel no diesel, reforçando o papel estratégico do combustível na transição energética brasileira. “A gente precisa olhar para a nossa realidade, e uma delas é o biodiesel”, afirmou.
A especialista destacou que os testes consideram a complexidade logística do país e a necessidade de representatividade das amostras e dos motores avaliados. Entre os avanços, ressaltou a inclusão de análises físico-químicas em condições críticas de armazenamento, com foco na formação de borras e depósitos. “A ideia é estressar o combustível para entender o comportamento e atacar o problema de forma mais efetiva”, explicou
Na apresentação “Biocidas e solventes no Diesel: Um mercado não regulamentado no Brasil”, Gilles Laurent Grimberg, da Actoil, chamou atenção para a ausência de regulamentação no uso de aditivos no país e para os riscos associados à aplicação indiscriminada desses produtos.
O executivo destacou que há uma percepção equivocada no mercado sobre a origem das borras nos combustíveis. “Nem todo problema é contaminação microbiana. Mais de 60% dos casos estão ligados à instabilidade oxidativa”, afirmou. Segundo ele, o uso inadequado de biocidas pode gerar efeitos adversos, como perda de lubricidade, corrosão e até resistência microbiana. “O melhor biocida ainda é a drenagem: sem água, não há contaminação”, reforçou, ao destacar a importância das boas práticas de armazenamento e manutenção.
De carona com a relevância do tema, a entidade anunciou a abertura, no próximo dia 4, de um grupo de trabalho dedicado sobre biocidas, a ser liderado por Sergio Viscardi, consultor técnico automotivo da entidade. O Painel 1 foi encerrado após debate com o público presente, sob a mediação de Suellen Gaeta, gerente executiva de estratégia e conformidade da Cummins Brasil.
O Painel 2 – “Descarbonização pela economia circular” – deu continuidade às discussões do simpósio ao abordar o papel da circularidade na redução de emissões ao longo de toda a cadeia automotiva.
Na palestra “Tecnologias de motores a combustão para descarbonização”, João Irineu Medeiros, vice-presidente de Assuntos Regulatórios da Stellantis, destacou que a descarbonização do setor exige uma abordagem baseada no ciclo de vida completo dos veículos, considerando desde a cadeia de suprimentos até o uso e o fim de vida.
O executivo chamou atenção para o peso dos materiais na pegada de carbono, especialmente o aço, e reforçou que soluções precisam ser adaptadas à realidade local.
Nesse contexto, destacou o papel do etanol no Brasil, que posiciona o país de forma diferenciada frente a outras regiões. “Temos soluções locais mais equilibradas do ponto de vista ambiental, econômico e social”, ressaltou. Como caminho, defendeu uma estratégia multi-tecnológica, combinando motores a combustão mais eficientes, híbridos e eletrificação, dentro de uma transição gradual e acessível ao consumidor.
Na sequência, na apresentação “O impacto da remanufatura na descarbonização”, José Leonardo Sanches, gerente regional da Cummins, abordou o papel da economia circular na redução de emissões por meio da reutilização de componentes. Segundo ele, a remanufatura, aplicada pela empresa na linha ReCon, permite restaurar produtos usados com o mesmo padrão de desempenho e garantia de um item novo, reduzindo significativamente o uso de recursos naturais.
Dados globais apresentados indicam reduções de até 84% nas emissões de CO₂ e no consumo de água, além de até 85% no uso de energia, quando comparado à produção de novos componentes. “Remanufaturar não é mais simples que fabricar, mas é muito mais eficiente no uso de recursos”, afirmou. Entre os desafios, destacou a complexidade operacional, a logística reversa e a disponibilidade de componentes usados, fundamentais para viabilizar o processo em escala.
Na palestra “Oportunidades e dilemas para a descarbonização através de biocombustíveis”, Glaucia Mendes Souza, professora titular da USP, trouxe uma visão baseada em evidências sobre o papel da bioenergia na transição energética, questionando a ideia de que a produção de biocombustíveis compete com a produção de alimentos. “Não existe esse trade-off entre alimento e combustível”, afirmou, ao destacar que estudos baseados em dados reais não indicam correlação entre a produção de biocombustíveis e impactos negativos na segurança alimentar.
A pesquisadora reforçou que, no caso brasileiro, a bioenergia está associada a ganhos estruturais, como aumento da produtividade agrícola, melhoria da qualidade do solo e desenvolvimento regional. “O impacto está no acesso à energia e na modernização da agricultura”, explicou. Nesse contexto, destacou o papel de políticas como o RenovaBio e a importância de critérios técnicos robustos na mensuração de emissões, defendendo que a sustentabilidade está mais ligada às práticas adotadas do que ao tipo de biomassa utilizada.
Na apresentação “Reciclagem de baterias de veículos eletrificados – desafios e oportunidades no Brasil”, André Ferrarese, da Tupy, abordou o papel estratégico da reciclagem de minerais críticos na descarbonização e na segurança da cadeia de suprimentos para a eletrificação.
O executivo destacou que a expansão dos veículos eletrificados traz um novo desafio: a dependência global de materiais como lítio, níquel e cobalto, cuja cadeia produtiva ainda é concentrada em poucos países. “A reciclagem passa a ser um elemento central para garantir disponibilidade e reduzir dependências”, afirmou. No Brasil, o tema ainda está em fase inicial, com iniciativas focadas principalmente na geração de “black mass”, que concentra os materiais recicláveis, mas ainda depende de avanços em escala industrial e regulação.
Ferrarese também destacou que a reciclagem envolve etapas complexas, desde a desmontagem das baterias até a separação e recuperação dos materiais, com destaque para processos hidrometalúrgicos, mais eficientes na recuperação de minerais. Entre os desafios, apontou a necessidade de estrutura regulatória, desenvolvimento tecnológico e criação de um ecossistema capaz de sustentar a cadeia no longo prazo.
O painel foi encerrado com debate entre os participantes, sob mediação de Christian Wahnfried, especialista em Requisitos, Combustíveis e Emissões da Robert Bosch. E coube a Renato Linke o encerramento do evento, que contou com 215 participantes.
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