Área do Associado (em manutenção)
31/08/2026 – O papel da engenharia e da tecnologia brasileiras no desenvolvimento de soluções para uma mobilidade mais sustentável, competitiva e adequada às características do País marcou as discussões do XXXIII SIMEA – Simpósio Internacional de Engenharia Automotiva, promovido pela AEA – Associação Brasileira de Engenharia Automotiva, nos dias 26 e 27 de agosto, em São Paulo. Sob o tema “Brasil em movimento: engenharia e tecnologia a serviço da sustentabilidade”, o evento reuniu representantes da indústria, governo e academia em uma ampla programação de painéis, palestras e debates sobre os principais desafios e transformações da engenharia da mobilidade.
Entre os destaques da programação estiveram as discussões sobre descarbonização do transporte pesado, inteligência artificial e digitalização, além do lançamento do novo Caderno AEA de Tendências Tecnológicas.
Na abertura, que contou com Marcus Vinicius Aguiar, presidente da AEA; Claudio Sahad, presidente do Sindipeças; Igor Calvet, presidente executivo da Anfavea; Marcelo Godoy, presidente da Abeifa; Marinna Silva, coordenadora do SIMEA 2026; Daniel Randon, presidente do Grupo Randon e presidente de honra do SIMEA 2026; e Adalberto Maluf, secretário do Meio Ambiente Urbano e Qualidade Ambiental do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, os participantes destacaram que o Brasil reúne condições diferenciadas para ampliar seu protagonismo nessa transformação, apoiado por sua matriz energética diversificada, disponibilidade de biocombustíveis e recursos minerais, parque industrial instalado e capacidade de engenharia. O desafio é converter essas vantagens em inovação, produtividade, produção local e desenvolvimento tecnológico, com atuação coordenada entre indústria, governo e academia.
Um dos destaques do SIMEA 2026 foi o lançamento do Caderno AEA de Tendências Tecnológicas – Minerais Críticos & Materiais Estratégicos para a Indústria da Mobilidade, desenvolvido para ampliar a reflexão sobre o uso dos recursos naturais diante das transformações da mobilidade e dos desafios que essa realidade impõe às próximas gerações.
Ao apresentar a publicação, Carlos Sakuramoto, diretor de Manufatura da AEA, chamou atenção para a responsabilidade da engenharia sobre o legado que será deixado para as próximas gerações. O trabalho parte de um cenário no qual a humanidade extrai mais de 100 bilhões de toneladas de recursos naturais por ano e já consome recursos equivalentes a 1,6 planeta anualmente. Baseado no conceito de economia circular, do “berço ao berço”, o Caderno conecta mobilidade, minerais críticos, materiais estratégicos e política industrial e aponta oportunidades para que o Brasil avance da exportação de commodities para atividades de maior valor agregado, como processamento, produção de componentes e desenvolvimento de tecnologia.
O papel das diferentes tecnologias na redução das emissões de caminhões, ônibus e máquinas agrícolas pautou o painel “A Força Motriz do Brasil: Agro 5.0, Biocombustíveis e Mobilidade Sustentável para Pesados”. As discussões convergiram para um cenário no qual não haverá uma única solução para a transição energética, que deverá avançar de acordo com as características de cada aplicação, disponibilidade de energia, infraestrutura e viabilidade econômica.
Marcus D’Elia, sócio-diretor da Leggio Consultoria, destacou que ainda não há uma rota tecnológica dominante capaz de promover uma substituição estrutural do diesel no horizonte analisado até 2060. Segundo ele, uma primeira onda da transição, voltada à redução das emissões, apresenta trajetória mais definida, com o avanço de biocombustíveis como biodiesel e diesel verde, enquanto uma segunda, em direção a zero emissões, permanece aberta a alternativas como eletrificação e hidrogênio.
Jeferson Lima, da AGCO Power Engineering, mostrou como inteligência artificial, conectividade e dados estão transformando as operações agrícolas e o desenvolvimento de máquinas. Também destacou o papel do agronegócio como plataforma de energia, com alternativas como biodiesel, HVO, etanol e biometano convivendo com eletrificação, sistemas híbridos e outras tecnologias, cuja aplicação dependerá de fatores como missão, custo, emissões e infraestrutura disponível.
Gilberto Martins, diretor de Assuntos Regulatórios da Anfavea, apontou adequação operacional, disponibilidade de energia e combustíveis, investimentos e renovação da frota como desafios para a descarbonização dos pesados. Mais de 60% dos caminhões em circulação têm mais de 11 anos, condição que retarda a incorporação de tecnologias mais eficientes e de menor emissão. Martins destacou ainda a oportunidade representada pelos minerais críticos e o desafio de o Brasil avançar para etapas de maior valor agregado dessa cadeia.Após as apresentações, os três executivos participaram de um debate mediado por Andréa Ramos, jornalista de AutoData Mobility e do podcast Vozes do Transporte.
O período da tarde do primeiro dia, a AEA – em parceria com o Instituto Minerva – lançou oficialmente o Programa Residência em Engenharia Automobilística, iniciativa voltada à formação e ao desenvolvimento de engenheiros para as novas demandas da indústria automotiva. Com duração de dois anos e inspirado no conceito de residência médica, o programa integra formação em nível de pós-graduação, atuação profissional em projetos reais e acompanhamento técnico e de carreira.
Duas palestras especiais deram continuidade ao programa, ainda no primeiro dia, com Leimar Mafort, da Bosch, que abordou o tema “IA e novas arquiteturas ampliando decisão, controle e experiência” e Andrew McKnight, do Innospec, que falou sobre “A importância dos aditivos na transição energética”.
Para fechar a programação, a mesa-redonda intitulada “Brasil: Exportador Global de Soluções Tecnológicas”, em que participaram como debatedores Bruno Plattek de Araújo (BNDES), Joel Boaretto (IHR), Camila Ramos (CELA e Fiesp) e Everton Lopes (vice-presidente da AEA), com a mediação do jornalista Pedro Kutney, editora da revista AutoData.
Avanço da digitalização – No segundo dia, o SIMEA trouxe a transformação digital da indústria no centro do painel “A Digitalização do Setor, do Código do Software ao Chão de Fábrica”. As apresentações mostraram como software, conectividade e inteligência artificial estão alterando diferentes etapas da indústria automotiva, do desenvolvimento e segurança dos veículos aos testes e processos de manufatura.
Fábio Maia, do CESAR Centro Inovação, abordou os novos desafios de cibersegurança trazidos pelos veículos definidos por software. Com arquiteturas conectadas à nuvem, atualizações contínuas e crescente utilização de IA, uma vulnerabilidade pode ganhar escala e atingir simultaneamente uma parcela significativa de uma frota. Nesse cenário, Maia defendeu mecanismos capazes de limitar a autoridade dos sistemas de IA sobre decisões críticas e estruturas de segurança preparadas para identificar e responder a ameaças ao longo de todo o ciclo de vida dos veículos.
Na área de testes e validação, Matthieu Claudet, da AVL Áustria, dimensionou o desafio imposto pela crescente complexidade dos veículos: são cerca de 30 mil componentes e 200 mil variáveis de software, enquanto menos de 1% das combinações possíveis são testadas. Entre as aplicações apresentadas estão o uso de IA para antecipar falhas e a automação da preparação de testes, processo que, em determinadas aplicações, pode passar de seis a 12 semanas para um a três dias com o emprego de inteligência artificial generativa.
Filip Mizoe, da General Motors, levou a discussão ao chão de fábrica e destacou a qualidade dos dados como condição para gerar resultados com IA. Segundo os dados apresentados, apenas 43% das informações coletadas pela indústria são efetivamente utilizadas. Entre as aplicações da tecnologia na manufatura estão manutenção preditiva, otimização da produção, eficiência energética e gestão de estoques, área em que projetos-piloto apresentados alcançaram redução de até cerca de 28% do inventário nos itens otimizados, mantendo a segurança de fornecimento.
A programação seguiu no período da tarde com Roberto David Mendes da Silva (Petrobras), com a palestra especial “Ambição e realidade: escalando inovações sustentáveis para mobilidade”. Ao final do segundo dia do evento, o SIMEA contou com uma mesa-redonda de debates, composta somente por mulheres que atuam no automobilismo: Bia Figueiredo, Rachel Loh, Alessandra Alves, Fabiana Ecclestone, Suzane Carvalho e Keurrie Goes (como mediadora). Elas destacaram suas atuações no esporte a motor, seus desafios enquanto profissionais e, sobretudo, mostraram os caminhos às jovens que buscam construir carreiras na indústria ou nas pistas.
Para fechar a 33ª edição do maior fórum técnico do setor automotivo brasileiro, professor Ronaldo Salvagni anunciou que este ano o SIMEA bateu recorde de inscrições de papers, chegando a 120 trabalhos, dos quais 60 foram apresentados nas sessões técnicas do evento. Salvagni anunciou ainda o trabalho vencedor desta edição, cujo título é “Especiação de hidrocarbonetos nas emissões de um veículo flex-fuel Proconve L8 com gasolina E22 e etanol hidratado”, na categoria emissões e poluentes, de autoria de Rogério Nascimento de Carvalho, Douglas Guerreiro Ribeiro, João Maximino de Souza, Gustavo de Morais Cassane, Tadeu Cavalcante Cordeiro de Melo e Pedro Caffaro Vicentini, da Petrobras.
Ao longo dos dois dias, a programação do SIMEA 2026 abordou debates que reforçaram a necessidade de o Brasil combinar suas vantagens em energia e recursos naturais com capacidade de engenharia, inovação e desenvolvimento tecnológico para ampliar sua competitividade e participação na construção da mobilidade do futuro.
Divulgação
Textofinal de Comunicação Integrada
Tel.: (11) 99940.7906
textofinal@textofinal.com
Koichiro Matsuo – k.matsuo@textofinal.com
Deixe um comentário