Assista ao vídeo da matéria no link oficial no site do Fantástico
Álcool ou gasolina? O que polui mais? A divulgação esta semana de uma lista mostrando quais carros são os vilões da poluição provocou uma grande discussão
“Na hora de escolher um carro, vejo se preço é bom ou se o motor é revisado”, afirma uma mulher.
“Eu vejo o design, a lataria, a pintura”, explica um homem.
Esta semana, ganhou destaque mais um critério que pode ser usado para escolher um carro.
O quanto ele polui. O Ministério do Meio Ambiente divulgou uma lista de modelos do ano passado e a quantidade de poluentes que eles emitem quando funcionam com gasolina ou com álcool.
“É um indicador para o consumidor saber se o carro que ele está comprando emite mais gás carbônico e aquece o clima do planeta ou faz mal para os pulmões”, observa o ministro Carlos Minc.
O gás que mais agride o planeta é o CO2, o dióxido de carbono.Tanto a gasolina quanto o álcool liberam essa substância. A gasolina vem do petróleo. É um processo produtivo que não reutiliza o dióxido de carbono. O CO2 liberado pelo carro fica na atmosfera, aumentando o aquecimento global.
Mas, na produção do álcool, é preciso plantar cana. E o vegetal, para crescer, absorve CO2. No fim das contas, a absorção compensa a emissão.
“Esse CO2 é consumido no crescimento da planta, a cana de açúcar, então tem um balanço ali que é praticamente nulo”, ensina a professora de Ciências Atmosféricas do IAG da USP Maria de Fátima Andrade.
Isto deu ao álcool a fama de combustível limpo, que, agora, a lista do Ministério pôs em dúvida. A relação considerou as emissões de três substâncias: monóxido de carbono, óxidos de nitrogênio e gases de uma família de compostos conhecidos como hidrocarbonetos. O álcool foi mal no teste.
Em muitos modelos, com motor flex, ele poluiu mais do que a gasolina. Um centro de pesquisas faz um teste igual ao que é feito nas montadoras e que foi utilizado pelo governo. O gerente do laboratório faz uma advertência importante: o problema está no motor flex, e não no combustível.
“Quando o veículo ele é flex, ele é projetado para trabalhar com dois combustíveis distintos. Então, atualmente estes veículos estão privilegiando a combustão com gasolina”, ensina o gerente de emissão veicular da CETESB-SP, Rui Abrantes.
“O motor flex ele é um pato, mais ou menos: ele nada, voa e anda, mas faz as três coisas meio mal. Ele queima incompletamente tanto gasolina quanto álcool. Então, em alguns, ele queima melhor álcool do que gasolina. Em outros, ele queima melhor a gasolina, e pior, o álcool. Quando você queima um combustível de forma incompleta, você gera mais poluição, e é disso que nós estamos falando neste estudo”, observa Paulo Saldiva, do Laboratório de Poluição Atmosférica da USP.
A Associação Brasileira de Engenharia Automotiva explica que no motor flex sempre vai haver um sacrifício.
“Quando dentro do mesmo motor você coloca dois tipos de combustíveis, o consumo deste carro a álcool pode subir um pouquinho, suas emissões pode subir um pouquinho, mas elas ainda ficam dentro dos limites exigidos da lei”, afirma o presidente da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva José Edison Parro.
“O veículo quando ele é dedicado a um único combustível, ele tem uma eficiência de combustão melhor, portanto, ele emite menos poluentes atmosféricos”, diz Rui Abrantes.
O motor flex pode se adaptar melhor ao álcool ou à gasolina, vai depender da fábrica.
“Uma prioriza a questão das emissões, outra prioriza mais a questão do consumo, outra prioriza mais a questão do desempenho”, revela José Edison Parro.
A Associação dos Fabricantes de Carros diz em nota que discorda dos critérios usados na elaboração da lista. E promete divulgar novos dados sobre emissão de poluentes. Já o ministério defende que o estudo é uma oportunidade para aperfeiçoar o motor flex.
“O erro maior não é do combustível, é do motor. Progressivamente as montadoras vão fazer ajustes”, afirma o ministro Carlos Minc.
Especialistas ainda lembram que o teste não levou em conta outras substâncias nocivas à saúde.
“As emissões de gasolina tem metais pesados, como o enxofre, coisas que o álcool não tem, ou tem muito menos”, argumenta Saldiva.
O dióxido de enxofre é uma substância que, na atmosfera, está envolvida na chamada chuva ácida.
“A gasolina emite muito mais dióxido de enxofre, o álcool não emite quase nada”, revela Maria de Fátima.
“Os três poluentes que nós escolhemos são os mesmos que foram escolhidos pela IPA, que é a agência americana, e pela agência européia”, diz Minc.